O início dos pagamentos do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) aos credores do Banco Master marca apenas a primeira etapa de um processo complexo que envolve investigações criminais, suspeitas de gestão fraudulenta e possível lavagem de dinheiro. Após a liquidação da instituição pelo Banco Central, milhares de investidores — pessoas físicas e jurídicas — passaram da condição de clientes para credores, entrando em uma longa fila por ressarcimento.
Segundo apurações da Polícia Federal, acolhidas pela Procuradoria-Geral da República (PGR), o banco teria captado recursos por meio da emissão de CDBs e direcionado esses valores para fundos controlados pelos próprios gestores, que, por sua vez, adquiriram ativos de empresas sem lastro econômico real. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal, com decisões do ministro Dias Toffoli, e passou a integrar a operação Compliance Zero.
Enquanto cerca de 150 mil credores começam a receber até R$ 250 mil garantidos pelo FGC, valores acima desse teto dependerão do processo de liquidação conduzido pelo Banco Central. O episódio reacende o debate sobre a segurança dos investimentos em renda fixa, o papel da regulação e os limites da proteção ao investidor no sistema financeiro brasileiro.
O anúncio de que o Fundo Garantidor de Créditos iniciará o pagamento aos credores do Banco Master representa um alívio parcial para milhares de investidores, mas está longe de encerrar um dos casos mais complexos e sensíveis do sistema financeiro brasileiro nos últimos anos.
Ao todo, o fundo recebeu cerca de 369 mil pedidos de ressarcimento, a maioria relacionada à compra de CDBs — títulos de renda fixa tradicionalmente vistos como seguros. Com a decretação do regime especial e posterior liquidação do banco pelo Banco Central do Brasil, os recursos ficaram indisponíveis, e os investidores passaram a depender dos mecanismos legais de proteção.
De acordo com o FGC, os pagamentos iniciais contemplam aproximadamente 150 mil pessoas físicas e jurídicas, respeitando o limite de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira. O fundo reforçou que não cobra taxas, não antecipa valores e não faz contatos por WhatsApp, SMS ou intermediários, alertando para tentativas de golpe.
O que levantou suspeitas
As investigações conduzidas pela Polícia Federal, com aval da Procuradoria-Geral da República, apontam para um esquema sofisticado de gestão fraudulenta, manipulação de mercado e possível lavagem de dinheiro.
Segundo os investigadores, o Banco Master captava recursos no mercado por meio da emissão de CDBs e os direcionava a fundos de investimento nos quais o próprio banco era cotista único. Esses fundos, por sua vez, adquiriam notas comerciais e direitos creditórios de empresas ligadas a sócios do banco ou a pessoas próximas, muitas delas sem lastro econômico real — algumas administradas por chamados “laranjas”.
Esse modelo teria criado uma aparência de solvência e rentabilidade, enquanto os riscos reais permaneciam ocultos dos investidores e do mercado.
O caso chega ao STF
A gravidade das suspeitas levou o caso ao Supremo Tribunal Federal. Por determinação do ministro Dias Toffoli, a Polícia Federal antecipou o depoimento de ex-diretores do Banco Master e do BRB, no âmbito da operação Compliance Zero.
O banco foi oficialmente liquidado em 18 de novembro de 2025, no mesmo dia em que a operação foi deflagrada. A segunda fase ocorreu em janeiro de 2026, aprofundando a apuração sobre a atuação de seus controladores, com destaque para o empresário Daniel Vorcaro.
💰 O que acontece com quem tem mais de R$ 250 mil
Valores que ultrapassam o teto garantido pelo FGC entram no processo de liquidação, conduzido pelo Banco Central. Nessa etapa, um liquidante é responsável por mapear ativos, créditos a receber, imóveis e participações societárias, avaliando quanto poderá ser recuperado ao longo do tempo.
Embora a legislação não implique necessariamente perda total do capital excedente, a recuperação depende do sucesso da venda de ativos e do desfecho das ações judiciais, o que pode levar anos.
Um alerta para o mercado
O caso do Banco Master lança luz sobre um ponto sensível do mercado financeiro: rentabilidade acima da média nunca vem sem risco, mesmo em produtos considerados conservadores. Ele também reacende o debate sobre falhas regulatórias, transparência na gestão de fundos e a real compreensão dos investidores sobre onde seu dinheiro está sendo aplicado.
Mais do que um episódio isolado, o colapso do banco se torna um marco sobre a necessidade de educação financeira, fiscalização rigorosa e cautela diante de promessas de retorno fácil — ainda que embaladas sob o rótulo de renda fixa.
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