Governos de diferentes países intensificaram o debate sobre restringir o acesso de crianças às redes sociais diante do avanço acelerado da inteligência artificial, do aumento do tempo de tela e de novos riscos digitais. O alerta ganhou força após denúncias envolvendo ferramentas de IA capazes de gerar imagens íntimas sem consentimento, inclusive de menores. No Reino Unido, autoridades estudam desde a proibição total de redes sociais para crianças até o endurecimento de mecanismos de verificação de idade e o fim de recursos considerados viciantes, como a rolagem infinita. A discussão ganhou ainda mais peso após a Austrália se tornar o primeiro país a proibir redes sociais para menores de 16 anos, servindo agora como modelo para outras nações. Especialistas e governos reconhecem avanços, mas admitem que o desafio está longe de um ponto final.
A relação entre crianças, adolescentes e redes sociais entrou definitivamente no centro das decisões políticas globais. O que antes era tratado como responsabilidade exclusiva das famílias passou a ser encarado como um problema de saúde pública, educação e segurança digital. O avanço rápido da inteligência artificial, somado ao uso cada vez mais precoce das plataformas, acelerou esse movimento.
Nas últimas semanas, governos e órgãos reguladores voltaram a discutir medidas mais duras para limitar o acesso de crianças ao ambiente digital. A preocupação não se resume apenas ao tempo excessivo de tela, mas também ao tipo de conteúdo ao qual menores estão expostos e às novas possibilidades abertas pela inteligência artificial. Relatos recentes apontaram o uso de ferramentas de IA para criar imagens íntimas sem consentimento, inclusive envolvendo crianças, o que gerou forte reação pública e política.
No Reino Unido, o governo já deixou claro que está disposto a ir além das regras atuais. Entre as propostas em análise estão a proibição total de ferramentas de “desnudamento” por inteligência artificial, o bloqueio de funcionalidades que incentivem o uso compulsivo das redes — como a rolagem infinita — e até mesmo a possibilidade de impedir completamente o acesso de crianças às plataformas sociais.
Autoridades britânicas afirmam que ainda estão avaliando dados e evidências internacionais para entender se uma proibição ampla seria realmente eficaz e, principalmente, como ela poderia ser aplicada na prática. Um dos maiores desafios apontados é a verificação de idade, já que os métodos atuais ainda são considerados frágeis e fáceis de burlar.
Esse debate ganhou ainda mais força após a Austrália anunciar uma medida inédita: a proibição do uso de redes sociais por crianças menores de 16 anos. A decisão colocou o país no centro das atenções globais e transformou sua experiência em um laboratório observado por outros governos. Ministros britânicos, inclusive, planejam visitas ao país para entender como a regra foi implementada, quais obstáculos surgiram e quais resultados iniciais estão sendo observados.
Apesar das críticas e preocupações com possíveis impactos na liberdade digital, o governo do Reino Unido destaca avanços já alcançados com a Lei de Segurança Online, considerada uma das mais rigorosas do mundo. Segundo dados oficiais, a proporção de crianças que se depararam com verificações de idade na internet aumentou significativamente, enquanto o acesso a sites pornográficos foi reduzido de forma expressiva.
Ainda assim, autoridades reconhecem que a legislação atual não é definitiva. A própria secretária de Tecnologia britânica afirmou que essas leis nunca foram pensadas como um ponto final e que novas medidas podem ser adotadas conforme os riscos evoluem. O consenso entre governos é que a tecnologia avança mais rápido do que a legislação, exigindo atualizações constantes.
No centro dessa discussão está uma pergunta cada vez mais urgente: até que ponto as redes sociais são compatíveis com o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes? Entre alertas sobre saúde mental, vício digital e exposição a conteúdos inadequados, cresce a percepção de que apenas a autorregulação das empresas não é suficiente.
O debate está longe de terminar, mas uma coisa já parece clara: a era de acesso irrestrito das crianças às redes sociais está sendo seriamente questionada. E as decisões tomadas agora podem redefinir a forma como as próximas gerações vão crescer, aprender e se relacionar no ambiente digital.
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