A crise entre o Palácio do Planalto e o Senado ganhou novos contornos e já domina os bastidores de Brasília. Às vésperas da sabatina de Jorge Messias — indicado por Luiz Inácio Lula da Silva para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal — o presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União-AP), decidiu endurecer o discurso e transformar um desconforto que era silencioso em um confronto aberto.
A insatisfação de Alcolumbre vinha crescendo desde o anúncio oficial da indicação. Mesmo após Lula comunicar ao país a escolha de Messias no dia 20, o governo demorou para enviar ao Senado a mensagem formal que inicia a tramitação. Para o presidente da Casa, esse atraso não foi um mero descuido burocrático: simbolizou um movimento estratégico do Executivo para ganhar tempo, reorganizar votos e tentar conduzir o processo sob sua conveniência.
Segundo aliados do senador, ele considerou o gesto “desrespeitoso” e interpretou como tentativa de interferência direta em uma prerrogativa exclusiva do Senado: conduzir sabatinas e votações de autoridades com total autonomia. Ao tornar pública sua crítica, Alcolumbre elevou o tom e desencadeou um efeito dominó dentro da República.
A resposta do governo veio rápida e dura. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, rebateu ponto por ponto, negou que o Palácio do Planalto tenha adotado qualquer postura de pressão e classificou as acusações como injustas e ofensivas ao diálogo institucional. Para ela, insinuar que o governo estaria condicionando negociações a cargos ou emendas não apenas deturpa a verdade, mas também tenta desgastar o Planalto no momento mais sensível da indicação.
No meio desse choque de forças, Jorge Messias cumpre uma maratona intensa nos corredores do Senado. É o tradicional “beija-mão”: conversas reservadas, visitas a gabinetes, construção de pontes com parlamentares e tentativas de neutralizar resistências. A missão é clara — garantir que, quando chegar o dia 10 de dezembro, ele tenha votos suficientes para sobreviver à sabatina e avançar ao plenário.
O Planalto, por sua vez, tenta adiar o processo. A estratégia é ganhar alguns dias extras para ampliar a base de apoio e evitar o desgaste político que viria de uma rejeição. Hoje, admitir uma derrota em uma indicação ao Supremo seria um impacto institucional forte e simbolicamente negativo para o governo. Mas essa manobra encontra um obstáculo direto: Davi Alcolumbre, que sinaliza que não pretende ceder e já discute iniciar o rito com base na própria publicação do Diário Oficial do Senado, prevendo leitura na CCJ no dia 3 de dezembro.
A temperatura subiu tanto que setores do Congresso já tratam o caso como “a pior crise entre o Senado e o governo desde o início do mandato”. E, quanto mais o impasse se prolonga, mais claro fica que a disputa ultrapassou o nome de Messias: o que está em jogo agora é força política, autonomia institucional e quem dita o ritmo no tabuleiro de Brasília.
Com ataques, respostas, notas oficiais e troca de declarações, a crise deve continuar crescendo até a data da sabatina. O desfecho pode redefinir não só o futuro de Jorge Messias no STF, mas também a relação entre o governo Lula e o Senado pelos próximos meses.
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