Senado resiste ao nome de Jorge Messias: evangélicos e oposição travam indicação de Lula ao STF


A indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, feita pelo presidente Lula, se transformou em um daqueles capítulos que Brasília adora: cheio de articulações subterrâneas, resistências inesperadas e um clima de desconfiança que só aumenta. Apesar do empenho do Planalto, Messias encontra uma muralha dentro do Senado — especialmente entre senadores evangélicos e a oposição mais dura ao governo.

A resistência dos evangélicos: fé, política e desconfiança

Mesmo sendo evangélico, Messias não tem a simpatia automática da bancada que representa esse segmento no Senado. Parte dos parlamentares insiste em associá-lo mais ao PT do que à religião, dizendo que ele seria “petista antes de evangélico”. Essa narrativa, repetida nos bastidores, acaba servindo como justificativa para negar encontros e bloquear pontes de diálogo.

O senador Carlos Viana, presidente da Frente Parlamentar Evangélica, ligou para os 17 membros do grupo. O resultado surpreendeu até aliados: a maioria não quer sequer abrir a porta para Messias. É pouco comum tamanha rejeição a um indicado ao STF antes mesmo da sabatina.

Oposição também fecha as portas

O bloco Vanguarda, formado pelo PL e pelo Novo — hoje o principal polo oposicionista no Senado — também mantém distância. O grupo reúne 16 senadores que veem Messias com cautela, especialmente por ele ter atuado como advogado-geral da União defendendo posições impopulares entre conservadores, como a questão do IOF e a disputa sobre transparência das emendas.

A previsão no Planalto era um encontro com o grupo nesta terça-feira, mas relatos indicam que parte dos senadores continua resistente. Muitos não querem dar a Messias a visibilidade que uma reunião desse tipo traria, preferindo manter a indicação “no freezer”.

Crise com Alcolumbre e falta de articulação do Planalto

A crise política ganhou mais um ingrediente quando Davi Alcolumbre, presidente da CCJ e peça-chave para a sabatina, demonstrou incômodo público. Ele afirmou ter ficado “perplexo” com a demora do Planalto em enviar os documentos oficiais da indicação — algo básico e indispensável para marcar oficialmente a sabatina.

Alcolumbre ainda reclamou de insinuações de que estaria segurando a indicação para negociar cargos e emendas. O Planalto, por sua vez, correu para desmentir qualquer tentativa de fisiologismo. A ministra Gleisi Hoffmann tentou abafar o incêndio, garantindo que não há negociação paralela.

Mas o estrago já estava feito: a articulação ficou exposta, o clima azedou e a votação pode acabar ficando para 2026.

Weverton Rocha entra em cena

O relator da indicação, o senador Weverton Rocha (PDT-MA), almoçou com Lula na tentativa de reorganizar a estratégia. A conversa ficou fora da agenda oficial, mas, politicamente, valeu como um gesto de que o governo quer, sim, acelerar. Weverton é influente, tem boa relação com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e já sinalizou que deve apresentar parecer favorável.

Mesmo assim, ele reconhece que não será simples vencer a resistência instalada. Hoje, Messias enfrenta muito mais oposição do que o Planalto imaginava.

Por que a resistência é tão grande?

Além do perfil político, pesa a atuação do AGU em temas que desagradaram parlamentares, como:

defesa de medidas do governo que contrariaram votos no Congresso;

debate sobre o aumento do IOF;

embates jurídicos envolvendo emendas e transparência;

percepção de alinhamento automático ao Executivo.


Para parte dos senadores, a dúvida é simples: Messias seria um ministro de Estado com toga? Essa pergunta, repetida nos corredores, é um dos principais entraves.

O cenário agora

Hoje, Messias tenta abrir caminho onde o ambiente está mais fechado: oposição e evangélicos. Ao mesmo tempo, o Planalto faz malabarismos para reorganizar a articulação, diminuir desavenças com Alcolumbre e evitar que a aprovação escorra para o ano que vem.

Se a sabatina não for marcada nas próximas semanas — e com os documentos ainda ausentes — a indicação pode ficar para depois do recesso, exatamente o que Lula não queria.

No fim das contas, o que deveria ser apenas um rito formal virou um teste político de força, paciência e articulação. E Messias, que deveria estar se preparando para responder perguntas na sabatina, está gastando energia tentando convencer quem não quer nem ouvi-lo.

Goste ou não, essa é a minha opinião.

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